Sobre a tal da criação com apego


O que que é essa parada de criação com apego?

Taí um exemplo de um termo que, de tanto que foi usado, foi perdendo parte do seu significado original. Vamos tentar explicar tudo o que você precisa saber sobre o tal do apego: de onde veio, como funciona, pra que serve e depois vamos focar nos riscos que apresenta. Bora?

De onde veio o termo?

O termo é uma confusão gigante. A criação com apego nada tem a ver com a teoria do apego e muito menos com crianças apegadas (no sentido de malcriadas).

A teoria do apego, para começar, foi uma teoria popularizada por Mary Einsworth para explicar o padrão de exploração das crianças e a relação de segurança que elas estabelecem com seus cuidadores. Uma criança com um apego seguro é aquela que explora um ambiente novo saindo do colo da mãe (pois é... a dona Einsworth só estudava as mães... por que? Porque sim. Não pergunte... essa foi a resposta que ela deu para seu aluno Lamb, que a questionou por não incluir os pais e que depois ele mesmo repetiria os experimentos com os pais e encontrou exatamente a mesma coisa) e não se sente intimidada se um estranho entrar no ambiente. Uma criança com um apego inseguro dificilmente exploraria esse ambiente. Isso criava um continuo e em ocasiões apegos conflitantes (quero e não quero explorar).

As crianças apegadas ou malcriadas nada têm a ver com a criação com apego e muito menos com a teoria do apego.

De fato, algumas pessoas, mas discretas na sua intelectualidade, podem acreditar que o respeito pelos tempos e momentos da criança é um sinal de fraqueza e indisciplina. Alguns acreditam mesmo que motivar uma criança a se expressar e refletir sobre sua necessidade é o mesmo que deixar a criança fazer o que bem entende. Alguns pais entendem que educar um filho é tolher a sua liberdade e sua individualidade, criando um universo restritivo para o período mais fértil da existência humana.

E a criação com apego?

Acontece que depois da Segunda Guerra, o mundo definitivamente estava precisando de mais amor. Muita gente começou a estudar novas formas de ensinar nas escolas, novas formas de se relacionar e novas formas de assumir a maternidade. Um pessoal estava meio cansado das opiniões dos sabichões da época, especialmente de um cara chamado Dr. Emmett Holt, que escreveu um livro ensinando as mães a lidar com os bebês. Entre os conselhos dele tínhamos: “É importante evitar todo tipo de brincadeiras com crianças de menos de 6 meses de idade, não brinque com elas, quanto menos brincar melhor, pois ficam irritadas, estressadas e podem ter até indigestão” (1).

Pois é. Além disso, também recomendavam os pais a não abraçar nem beijar tanto os filhos e a evitar as demonstrações de afeto em público (o mais engraçado é que hoje, 70 anos depois, temos a Gina Ford escrevendo as mesmas coisas e vendendo milhões de livros).

A resposta a esse tipo de conselho veio rapidamente com uma galera que sugeria uma volta ao natural, ao cuidado instintivo, a uma maternidade mais do senso comum, sem tanta regra. Timidamente, um cara foi despontando como a voz líder do movimento: o Dr. Spock.

Spock era um pediatra diferentão. Defendia o senso comum, o afeto, a flexibilidade e a intuição dos pais do bebê como o melhor caminho a ser seguido. Foi um dos primeiros que abordou o assunto de como criar bebês em lares com um único pai, questões de gênero, e defendia que tanto o pai quanto a mãe deviam se envolver na criação.

A Lucy com o Ricky Ricardo consultando o livro do Dr .Spock pra ver qual é a do little Ricky! kkk

Com o tempo, outros profissionais foram baseando seu trabalho nas ideias do Dr. Spock e aproveitando pra agregar suas próprias contribuições: uma adicionou uma amamentação prolongada, a outra botou a importância de carregar o bebê pra tudo que é lado (no sling) e outro sugeriu que esse lance de dormir em camas separadas era o ó, que o negócio era todo mundo dormir junto. Muitas dessas novas teorias tinham como base o estudo de tribos antigas ou povos tradicionais e questões antropológicas. A volta ao natural então parecia ser a tendência a ser seguida, uma nova forma de fazer as coisas.

Como acontece com tudo, criou-se uma força teórica e cometeram-se alguns excessos, que já já vamos analisar.

Na seara desses novos teóricos apareceu um casal bem loko. Eram os Sears (William e Martha). A relação desses dois com a paternidade era intensa. Era (é ainda) um casal de cristãos ultratradicionalistas e conservadores que tinham oito filhos. Eles bolaram a tal da teoria da criação com apego (2).

A coisa começou como um manual para pais cristãos. Em vários trechos do primeiro livro (3), podemos ler coisas do tipo “as mulheres devem se submeter em tudo aos seus maridos… Deus colocou nelas a química e a sensibilidade necessária para responder apropriadamente aos seus bebês”.

Na real, a teoria não tinha nada de novo. Basicamente era uma coletânea de várias opiniões de outras pessoas que já enfrentavam essa criação mais comportamentalista e meio fria. Os Sears defendiam que os pais (a mãe, essencialmente):

- deviam se ligar no bebê já na gravidez - amamentar por um longo período e não apenas alguns meses (tudo bem se der 4 anos e ainda estiver mamando) - andar com o bebê e fazer tudo o que der com ele no colo (sling) - dormir perto - entender o choro do bebê como uma forma de comunicação (não é manha)

Esses são, muito resumidamente, os princípios da criação com apego. Como bons americanos, foram ligeiros e criaram o Instituto para a Criação com Apego (API: Attachment Parenting International), virou ONG e você pode ser membro e ter carteirinha e tals. Pode também doar dinheiro à causa, se quiser, ou pode frequentar os grupos de apoio (tem um no Rio de Janeiro, parece). O trabalho que a ONG realiza e tudo mais estão fora do escopo deste texto. Se vira.

Beleza, e tudo isso serve pra alguma coisa?

Na real, não sabemos. Não existe um estudo possível em que possamos comparar gêmeos idênticos em grupos criados com apego e criados com outros métodos e ver o que deu no futuro. Como toda teoria na vida (da desaparição dos dinossauros até o primeiro mundial do Corinthians), só faz sentido se você identifica nela alguns dos princípios que norteiam sua própria vida. Ninguém segue uma teoria que atenta contra suas crenças.

O que sabemos é que existem vantagens importantes em todos os pontos mencionados pela teoria... Quer ver?

A teoria diz que os pais deveriam se vincular ao bebê já na gravidez. Hoje sabemos que um pai que se engaja na gravidez apresenta alterações na sua própria química. Produz prolactina, progesterona e reduz a testosterona, deixando-o mais sensível e menos agressivo (e mais gordo)... Mas isso não é tão relevante como o fato de que se a mãe se estressar menos durante a gravidez (graças aos cuidados desse broder e ao bom ambiente do lar), ela vai acumular menos cortisol (hormônio relacionado ao estresse), o bebê suga esse hormônio e o risco de alterações no desenvolvimento do feto são maiores (5).

Amamentar por um longo período e não apenas alguns meses. Precisa falar? Os benefícios da amamentação são mundialmente reconhecidos!

Andar com o bebê e fazer tudo o que der com ele no colo. Bebês que andam no sling ou no colo choram 43% menos que os bebês deixados no carrinho ou sozinhos por aí (6).

Dormir perto. Nos primeiros meses, dormir perto do bebê é uma mão na roda para a amamentação. Dormir até os 6 meses com os pais reduz o risco de morte súbita em até 10 vezes, se feito direitinho. Sabia que não foi publicado NENHUM livro sobre sono infantil no século XIX? Bizarro, né. O casal tinha uma penca de filhos, mas tinha apenas dois quartos… Então os filhos dormiam junto com alguém… Agora neste século, em que as crianças têm que conquistar independência logo, isso virou um problema.

Entender o choro do bebê como uma forma de comunicação (não é manha): o bebê não fala. Também não tem a noção do tempo nem da ausência (o cara não saca que você pode estar em outro quarto, você simplesmente sumiu). O mundo é gigante e novo, tem barulho, luz e cor. Ele não é dono dos seus movimentos, não controla nem o xixi…. Você não ia chorar? Eu ia. E se for tudo de bom a tal da criação com apego? Qual o problema?

A criação com apego chega como uma volta ao natural, às raízes, aos conhecimentos fundamentais… Tanto é que suas praticantes são chamadas de “índias” pela comunidade que segue outros princípios de criação. Essa volta à origem é uma clara reação da maternidade (e por tabela, da paternidade) a uma série de realidades que foram se instaurando nos últimos anos e que incluem coisas como a medicalização do parto, o consumismo infantil e o papel da escola na vida de uma pessoa, por exemplo.

Nos últimos anos presenciamos o quase abandono do parto natural, a intervenção médica excessiva, o descaso com a alimentação do bebê, o aumento gigante na obesidade infantil, a adultização e sexualização da criança, o consumismo mirim, o uso desmedido de eletrônicos pelos mais jovens, o foco escolar (e no lar) em competências para o mundo do trabalho e não para a vida em sociedade. Vimos o aumento das UTI neonatais, mas o número de pediatras só diminui. Enchemos as crianças com metilfenidato e carbonato de lítio em vez de beijos e abraços.

Era hora do pêndulo voltar.

E voltou com força. Mulheres se organizaram, juntaram-se em grupos de trabalho e frentes de batalha, pegaram de volta sua capacidade de parir e mandaram pra puta que o pariu uma boa porção da classe médica. Alguns pais vieram junto, timidamente, mas com determinação. O conceito da gravidez, da infância e do papel da criação na sociedade foi revisto em muitas famílias.

Despontava a possibilidade de um novo mundo, uma nova humanidade em que todos, banhados em ocitocina, seríamos a panaceia do acolhimento, a empatia e a irmandade-sororidade.

Com tanta baboseira na internet e nos consultórios, a criação com apego era genial. As famílias agora tinham uma lista de coisas a serem feitas que, se feitas direito, garantiriam o sucesso emocional e do desenvolvimento do filhote. Era só seguir os passos! Parir naturalmente, amamentar por longos anos, usar um sling, dormir no mesmo quarto, evitar a chupeta, os doces, a TV e, em alguns casos, as vacinas e a escola.

Claro que todos esses elementos têm vantagens importantes, em alguns pontos os benefícios são inquestionáveis e realmente críticos. Mas nem todo mundo consegue seguir a cartilha, seja por motivos financeiros, familiares ou por pura logística (ou porque não está a fim mesmo). Isso gera uma frustração enorme e nutre um sentimento de culpa, uma culpa desproporcional por “não ser capaz”, pelas implicações terríveis que só um demônio como a mãe consegue provocar nos filhos (obrigado, Laura Gutman).

Já encontrei casais amorosos e dedicados tendo que “confessar” que em certa ocasião consideraram oferecer uma mamadeira para o bebê, “mas não fizemos! Ufa!”. E aqueles que dão uma mamadeira? Admitem seu terrível erro com resignação, esperando ser julgados, emendando em seguida uma justificativa pertinente. Em muitos casos, os grupos e as pessoas que promovem a criação com apego deixaram de ser diversidade e passaram a ser cultura. Isto é, estão prestes a criticar quem faz diferente, quem não tem o conhecimento puro, quem não segue os ensinamentos, quem não quer ser convencido e catequizado pela verdade.

A empatia é só para quem é do rolê, aquele que é igual a mim.

Talvez esteja na hora de o pêndulo oscilar mais uma vez, só um pouquinho. Que possamos criar mais os filhos e menos as teorias e que possamos nos encontrar na paciência e na tolerância com quem faz diferente. Sejamos felizes com a nossa escolha na paternidade/maternidade, assim como os outros são.

Foto do post: Gabi Trevisan

Umas referências:

(1) The Care and Feeding of Children (você pode ler o texto no Project Gutenberg) (2) Sears, Bill; Sears, Martha (2001). The Attachment Parenting Book: A Commonsense Guide to Understanding and Nurturing Your Baby. New York, Boston: Little, Brown and Company. pp. 2f, 5, 8–10, 110. ISBN 0-316-77809-5. (3) The Complete Book of Christian Parenting and Child Care: A Medical and Moral Guide to Raising Happy Healthy Children William e Martha Sears ISBN: 0805461981 (4) Ainsworth, M.D.S., Blehar, M. C., Waters, E., & Wall, S. (1978). Patterns of attachment: A psychological study of the strange situation. Hillsdale, NJ: Earlbaum. (5) Moraes, Paula Louredo. "Estresse na gravidez"; Brasil Escola. Disponível em <http://brasilescola.uol.com.br/biologia/estresse-na-gravidez.htm>. Acesso em 05 de fevereiro de 2017. (6) https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/3517799

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