Pra que(m) você dá bronca no seu filho?

Veja, não é um questionamento! A discussão aqui não tem a ver como os motivos que levaram a criança a tomar uma bela bronca, tem a ver com os motivos que levaram o pai a fazer isso. Tá ficando confuso. Melhor começar.

Haja!

O dia a dia com uma criança pequena pode ser comparado a subir numa montanha russa, beber cinco catuabas, vendar os olhos e mandar ver. Nunca se sabe como vai ser, se vamos sair vivos ou não, se vai ter gente ferida ou se vai ser uma experiência fantástica (ou um dia de merda). Quem fica com o filho durante o dia sabe que o que aconteceu no dia anterior pode não ter efeito nenhum no dia seguinte. Ontem foi um mar de rosas e hoje é aquele punk hardcore anarco-underground.

Nessa aventura não faltam os momentos de tensão, as negociações sem sentido e os choros doídos pelos motivos mais esdrúxulos. É normal que a paciência entre no cheque especial. Uma hora o bico abre.

Negociando com uma criança

Lá está ela. Tem três anos e se sente a dona do mundo. E ela é de fato. O mundo é ela. As representações mentais que ela cria estão totalmente relacionadas ao seu próprio sentir. Em estudos recentes aprendemos que bebês de 18 meses consideram que sua dor e sua alegria são sentidas pelas outras pessoas com a mesma intensidade e qualidade que eles sentiram. É como se não houvesse uma barreira entre meu sentimento e o teu (interessante que Hume, Buber e até Buda dizem que apagar essa barreira é a única forma de experimentar a verdadeira moralidade).

Aos três anos, a criança entende que teu sentimento é diferente do dela, mas sofre um pouco para entender que teus objetivos e necessidades podem não ser os mesmos. O egocentrismo na criança não é um defeito, é apenas uma leitura do mundo (o foda é muito adulto continuar assim até hoje). Não podemos culpá-la por isso. Seu mundo é recente, novo e extremamente inconsistente e doido. Está investindo uma quantidade enorme de tempo e recurso tentando se comunicar de formas menos físicas, ainda não conta com uma boa memória autobiográfica e sua projeção do futuro não ultrapassa os dez minutos. É com essa figura que você está tentando negociar.

É esperado que a negociação que você tenta dê errado. Você tem quase tudo em contra. É como negociar com o último imperador chinês: a língua é uma barreira, o capricho rola solto e o mundo é todinho dele... É normal que você não só não consiga o que queria mas que ainda tenha que oferecer mais do que estava disposto a dar no começo.

Com esse cenário pela frente e na falta de outros recursos, é normal levantar o tom de voz, ser mais ríspido ou ameaçar a criança com perda de benefícios ou com outro tipo de castigo. Quem nunca?

Negociando com você

Definitivamente negociar, convencer e persuadir uma criança é uma tarefa que requer paciência e sabedoria. E negociar com você? Como é?

É muito complicado manter a serenidade e o bom humor com o bicho pegando. Ter a perspectiva da importância crítica e fundamental desses primeiros anos de vida dos nossos filhos sempre presente é um desafio gigantesco. A correria nos deixa inflexíveis quando poderíamos ser mais relaxados. Os péssimos hábitos que temos para administrar nosso tempo nos deixam autoritários e frenéticos quando deveríamos ser condescendentes e pacientes. Exigimos demais deles e de nós. Uma loucura.

É engraçado... Mas a maior parte do tempo você não está negociando com uma criança, está negociando com você mesmo, com sua paciência e sua serenidade.

E o que tudo isso tem a ver com a bronca que damos nos filhos?

O tribunal

Lá vamos nós, com o nosso imperador chinês pra fora de casa. Vamos ao supermercado, ao parquinho, ao restaurante ou à casa de uns amigos. Eis que o imperador vira dragão e toca o terror. Morde um amiguinho no escorregador, arremessa a comida na mesa vizinha ou exige levar pra casa uma bolacha que tem mais químicos que um sabão em pó (curiosamente ambos os produtos pertencem à mesma empresa). As pessoas esperam uma reação sua. A criança chora, grita e se estrebucha toda. O que você vai fazer? O supremo tribunal da criança alheia está instaurado. As pessoas exigem uma ação sua. E você, no fundo, se sente obrigado a fazer alguma coisa. E faz (às vezes) a coisa errada.

Vergonha versus culpa

Quando damos bronca nos nossos filhos (na frente dos outros especialmente), estamos alimentando um sentimento pouco recomendável para o desenvolvimento cognitivo ideal de uma criança: a vergonha.

A vergonha é um sentimento que faz com que você se sinta mal por aquilo que você é.

Quando orientamos nossos filhos depois de fazerem algo errado (tomara que longe dos olhos dos outros), estamos alimentando um sentimento altamente recomendável para o desenvolvimento cognitivo ideal de uma criança: a culpa.

A culpa é um sentimento que faz com que você se sinta mal por alguma coisa que você fez.

A vergonha não modifica o comportamento, apenas o disfarça. A vergonha costuma ser uma emoção vinda da exposição, do julgamento do outros, do efeito inquisidor da praça pública. A vergonha não modifica o comportamento, apenas o esconde, o encobre. Uma pessoa que se envergonha do que faz não deixa de fazer aquilo, só faz escondido, quando ninguém vê. O sentimento da vergonha não gera remorso, arrependimento, nem vontade de fazer diferente. A vergonha te faz se sentir péssimo porque você é errado. Quando o ataque é contra você e não contra aquilo que você faz, você passa a se defender, a se justificar, a se explicar, a colocar a culpa nos outros e a se fazer de vítima. Uma pesquisa aponta que os sentimentos de vergonha se relacionam fortemente com mostras de hostilidade, fúria e a propensão a culpar os outros (e isso não só na infância... pois a vergonha se associa com depressão, ansiedade, abuso de substâncias e suicídio).

A culpa, por outra parte, apesar da carga emocional negativa da palavra e da dor que ela gera na pessoa que a sente, é extremamente positiva para mudar o comportamento e para se emendar com aqueles que ofendemos. A culpa é um choque contra os princípios. É uma discrepância contra aquilo que somos, aquilo que defendemos. Gera remorso e desejo de reparação. O errado não sou eu, eu não sou assim, porém pisei na bola, caguei. Preciso reparar. A promessa é nunca mais fazer.

Nas pesquisas realizadas com detentos, por exemplo, é interessante apontar que quem comete um crime e sente culpa do que fez, tem uma probabilidade de reincidência muito menor do que aquele ofensor que não se sente assim. O sentimento de ser achincalhado, envergonhado e constrangido na frente dos outros está muito associado aos crimes de intolerância e violência. Hoje há uma nova corrente de reinserção de ex-detentos focada na redução de vergonha e aumento de culpa (Reintegrative Shaming Theory) que busca apontar os defeitos no comportamento ilegal e não na pessoa que os realiza.

E as crianças?

As crianças estão aprendendo. Algumas aprenderão que podem fazer coisa errada quando não há adultos por perto. Outras entenderão que algumas das suas ações geraram uma consequência desagradável para alguém. Aprenderão a pedir desculpas e a arrumar a bagunça junto. Outras serão obrigadas a pedir desculpa na frente de todos, sem um arrependimento genuíno. Umas vão dizer “se meu pai ficar sabendo me mata”, outras vão dizer “preciso contar pro meu pai para ele me orientar”.

A verdade é que todos nós estamos (ou deveríamos estar, ao menos) em processo de contínuo crescimento e aprendizado. Nossa personalidade, como adultos, embora bem definida e autossustentada, continua se lapidando, aperfeiçoando e melhorando a cada nova experiência significativa. Essa é a oportunidade que a paternidade traz. Se você é pai e não se modifica um monte no processo, alguma coisa deu errado.

Sempre é bom lembrar que na idade adulta precisamos de um grande evento para aprender uma pequena coisa. Por outra parte, na vida infantil precisamos de pequenos eventos para aprender coisas gigantes.

Alguma luz?

Uma listinha de sugestões que podem ajudar (longe de ser uma cagação de regra, é só coisinhas que funcionaram para alguns pais):

1 – Não obrigue o seu filho a pedir desculpas. Converse com ele, fale do dano que causou, da situação chata pra outra pessoa ou pra você. Se num primeiro momento a palavra “desculpa” não vem, está tudo bem. Você e eu, adultos, sabemos que reconhecer o erro e pedir desculpas de forma genuína é um dos eventos mais raros da humanidade. Leva tempo. Gritar com um filho pra ele falar “desculpa” sem um eco emocional real no coração dele é ensinar que tem palavras vazias que é só falar que a vida continua. Acredite, quando a fichinha dele cair sobre as consequências dos seus atos, seu pedido de desculpas será verdadeiro e sentido.

2 – Modele os comportamentos que você espera ver antes ou depois das tretas, não durante. Querer ensinar alguma coisa durante a crise é contraproducente. Na brincadeira, na leitura, na conversa, tente exemplificar o sentimento do outro, o espaço do outro e o direito do outro. Quando a treta estiver rolando você pode “chamar” essa memória e pode ajudar.

3 – Seu compromisso é com o seu filho. Não com o público geral. Se seu filho está surtado e a situação está insuportável, lembre que todo seu comportamento deve estar orientado às necessidades do seu filho, não ao prazer e entretenimento de quem está olhando. Nossos filhos investiram muito tempo e recursos neurológicos para identificar as mínimas alterações de humor em nós e respondem muito a esses sinais: você calmo, ele se acalma.

4 – Ensine a diferenciar contextos. Estamos no parque! Podemos gritar e correr (grite e corra junto... é libertador). Estamos no restaurante, podemos desenhar e conversar baixinho. Estamos na casa dos outros, são os outros que determinam o que podemos usar e o que não. Estamos na nossa casa com outros, somos nós que determinamos o que os outros vão usar e o que não. Faça isso como aviso prévio: filha, agora vamos pro restaurante. Lá a gente pode conversar, mas sem gritar... por exemplo. Prepare os terrenos, não podemos agir tão reativamente ou supor que a criança, com sua honestidade e paciência limitadíssima, saiba o que fazer.

5 – Manifeste sua opinião sobre o comportamento esperado em vez de dar ordens. “Eu acho que a tua colega não está gostando do que você está fazendo. Eu acho que ela está incomodada, será que a gente poderia brincar de outra coisa?” “Acho que o garçom vai ficar um pouco chateado por ter que limpar tudo isso depois, o que você acha de nós ajudarmos a limpar antes de ele chegar?” Esse tipo de abordagem acende uma chama de solidariedade e noção do outro que é muito rara na nossa sociedade. Elencar o sentimento do outro é muito positivo para uma criança em formação. Se for necessário, você pode ser um pouco mais diretivo na sua abordagem, mas não isente a criança da sua responsabilidade.

6 – Se tiver alguma pessoa próxima realmente incomodada com o comportamento do seu filho (vizinho, parente, pais de coleguinha), converse com eles. Fale que você está trabalhando a agressividade/comunicação com seu filho, que a sua filha está entendendo cada vez mais o jeito certo de brincar, de não machucar... etc. Converse, peça paciência e leve uma paçoquinha pra agradar. Os outros incomodados podem se... lascar, não se preocupe com eles. Eles não se preocupam com você.

7 – É muito melhor apontar um problema num comportamento (específico, mutável, circunstancial) do que numa característica de personalidade (permanente, forte e definidora do próprio EU). Um “não seja tão agressivo” pode ser perfeitamente desmembrado e traduzido em comportamentos. A diferença parece linguística, mas não é. É muito mais fácil modificar uma coisa que eu faço errado a modificar uma coisa em que eu SOU errado.

Bibliografia

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