Filho, você está fazendo errado... E isso é muito bom!


O desenvolvimento infantil é uma maravilha, a sincronia da evolução cognitiva com os picos metabólicos é uma coisa dos deuses. A experimentação, o ensaio, o teste e a comprovação, tudo coisa divina. A confirmação de hipóteses, a refutação de teorias, o estabelecimento de métricas, paralelismos, comprovações e o surgimento de novas dúvidas... Uma coisa primorosa. Ah (suspiro), que máquina maravilhosa que é o cérebro humano em desenvolvimento...

Até aparecer um adulto e cagar tudo.

Ok. Meio exagerado. Mas o fato é que é muito difícil estabelecermos uma distância segura onde a nossa presença não atrapalha e a nossa ausência não preocupa. Como definir se devo ou não intervir? Devo ou não atender ao chamado da minha filha por ajuda? Devo sugerir? Apoiar? Deixar cair? Se machucar talvez?

A tal da superpresença (overparenting, pra ficar chique).

Uma criança pequena descobre sua independência a cada dia. Aos dois anos, já se acha pessoa. Isso não é por acaso: seu cérebro é capaz de mil conexões novas por dia, consegue migrar células de um lugar ao outro do córtex e armazena dados em formatos inimagináveis para nós, reles adultos (pois é, cheira sons, degusta cores... etc.). A sua curiosidade científica é enorme. Tudo lhe interessa: uma planta, o sol e os idiomas estrangeiros. Cada coisa é um milagre a ser estudado, um mundo novo a ser desbravado. O mundo (por si só) é um lugar fantástico.

Os adulto pira!

Os ambientes megacontrolados, as atividades regradas e os brinquedos eletrônicos que brincam sozinhos acabaram piorando o cenário. As ruas não são mais (ao que parece) tão seguras quanto antes. O confinamento físico é o primeiro passo para um aprisionamento mental e estima-se que aos dois anos a criança ouve “não”, na média, 400 vezes por dia (1).

No seu anseio de melhorar o panorama, muitos pais se prontificam a atender essa necessidade toda e sem querer sufocam a criança, gerando um relacionamento caótico e cheio de embate e confronto.

A verdade é que os pais não querem ver seus filhos tristes e frustrados e acabam intervindo mais do que deveriam. O que esquecemos todos é que, como na maioria das espécies animais, são os pequenos desafios da infância que constroem a base para enfrentar, mais pra frente, os desafios realmente complicados, inevitáveis, dolorosos e às vezes traumáticos da vida.

Uma distância segura

Um bom pai deve ser como um bom garçom. Aquele garçom que fica indo na sua mesa encher seu copo de água, voltando incontáveis vezes pra ver está tudo certo (interrompendo sua conversa) e tirando e colocando coisas da sua mesa o tempo inteiro é irritante demais. O mesmo ocorre com aquele garçom que te evita, se esconde e quando te atende o faz de má vontade. O bom garçom está atento aos sinais, mantém uma distância prudente, deixando o freguês à vontade, mas sempre de olho nele.

Sei lá se esse exemplo é bom ou não, mas o fato é que o desenvolvimento infantil não se trata apenas de perder roupas e mudar de dentes. O desenvolvimento infantil sadio também passa pela criação de uma autoimagem, de um senso de si mesmo que acompanhará a criança até sua idade adulta. Os pais são responsáveis diretos pela imagem que os filhos têm deles mesmos.

Uma criança que realiza uma atividade e ouve elogios sobre como ele é brilhante, como ele é capaz e como sua inteligência está acima da média é uma criança que dificilmente assumirá desafios maiores para não estragar essa imagem que se criou dele ou que encontrará uma fonte intolerável de frustração quando sua magnânima inteligência não conseguir resolver um desafio posterior.

Uma criança que já está em capacidade de realizar uma tarefa e não pode realizá-la porque seu pai não a deixa é uma criança que sofre pra ganhar autonomia e independência.

Uma criança que recebe ajuda que não precisa aprende uma lição dramática pra sua vida: seu esforço vale nada.

Nenhuma novidade

Os efeitos da paternidade invasiva ou superpresente são estudados há décadas. Termos antigos, como o “pai helicóptero” ou a “mãe leoa”, foram cunhados lá na década de 1960 (e relatam aqueles pais intervencionistas, superprotetores e amedrontados que eliminam até os mínimos obstáculos para seus filhos não sofrerem).

O panorama não é lá muito alentador. Por exemplo, se comparar a década de 1990 com o ano passado, na Inglaterra, houve um aumento de 25% de filhos que ainda moram na casa dos pais até os 34 anos de idade.

A molecada sofre na faculdade para amarrar o cadarço.

As implicações para o mercado de trabalho já ficaram claras com a geração que hoje está com vinte e poucos anos. Mas o trabalho é o menor dos problemas. A frustração do amor, a instabilidade da vida, a perda, o luto, a luta... Tudo isso é extremamente assustador pra quem nunca teve que dar descarga ou fazer a cama.

Veja, não estou falando que as crianças não precisam de suporte e apoio. Também não estou falando que devemos sobrecarregar nossas crias com tarefas e lições e privá-las de qualquer tipo de elogio ou reconhecimento. Estou falando de controlar nossa ansiedade e nosso medo para não tolher seus passos tímidos e constantes para uma vida plena e autossuficiente.

Quem disse que era fácil?

Se você acha muito difícil deixar o filho explorar sem intervir tanto, você está certo. É difícil pra burro. Morremos de medo, temos pavor de braços quebrados, de choros de frustração e de coraçõezinhos magoados. Mas e o outro lado? E a felicidade de ver esse seu filho conseguindo uma pequena façanha? E a sua sensação de conquista por essa nova habilidade? Por essa sacada brilhante? Por esse medo dissipado?

A questão mais difícil da paternidade não é trazer dinheiro pra casa ou tirar tempo e energia pra brincar depois de um dia de merda. O mais difícil da paternidade é a educação emocional que damos aos filhos. Se nossas crianças entenderem emoções como o medo e a ansiedade, elas serão pessoas mais plenas. Aprender a falhar, se levantar e tentar de novo é herança mais benéfica do que muito patrimônio por aí.

Ganhar é a coisa mais fácil do mundo. Perder é só para os fortes de espírito. Deixe que seu filho perca às vezes, ele estará ganhando muito (e você também).

Aquelas dicas práticas...

(disclaimer de sempre: isto aqui não é uma cagação de regra. São apenas coisas que funcionaram pra outros pais e que compilamos por aqui)

- Respire fundo. Avalie objetivamente o risco que seu filho está enfrentando... É tão ameaçador assim? A maioria das nossas intervenções não tem base real. É uma simples programação maldita de vidas passadas que aparece automaticamente nos momentos mais inoportunos.

- Você não permitir que seu filho se vire sozinho... É pra atender uma demanda dele ou uma demanda sua? Às vezes no cansaço ou na correria intervimos sem necessidade porque é mais prático, mais rápido e mais conveniente PRA NÓS.

- Todo pequeno desafio vale. Não caia no papo do Peter Pan de achar que as crianças só vão construir sua autonomia se lutar contra piratas e crocodilos. As crianças vão construir sua autonomia bebendo no copinho, descendo da cadeira e limpando a bunda com o papel higiênico da galinha pintadinha.

- Olhe-se no espelho. A criança te saca, o tempo inteiro. Seu medo e ansiedade se refletem no comportamento dela. Sua pressa e impaciência atrapalham sua execução.

- Elogie com responsabilidade. Não exagere. Seu filho acredita em tudo o que você fala.

- Não o deixe ganhar sempre. Mas também não ganhe dele de lavada.

- Manifeste sua opinião em vez de impor sua decisão. “Eu acho que faz mais sentido você pular pro outro lado” é bem melhor do que “você tá louco? Vai se arrebentar”.

- Uma das grandes responsabilidades como pai é mostrar pro filho que a vida adulta pode ser bem legal também. Permitam-se algumas irresponsabilidades… às vezes. A rotina desse dia particular não é lá tão necessária se der pra construir um momento lindo ficando meia horinha a mais acordado ou tomando uma chuvinha de nada.

Referências

1 - http://ninaspencer.com/working-wisdom-2014/working-wisdom-archive/words-part-1/

Dweck, C. S. (1986). "Motivational processes affecting learning". American Psychologist. 41 (10): 1040–1048. doi:10.1037/0003-066X.41.10.1040.

Baumrind, D. (1966). Effects of Authoritative Parental Control on Child Behavior, Child Development, 37(4), 887-907.

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