A infame nova paternidade

Esses dias participei de uma entrevista para o principal canal de TV do Brasil. A entrevista foi feita no âmbito do Balaio de Pais nosso querido podcast que discute assuntos relacionados à paternidade e do qual participo com tanto carinho.

A Ideia da emissora era mostrar um pouco essa suposta nova paternidade que está tão na moda ultimamente. Indagar alguns elementos comuns do imaginário do pai incompetente (troca de fraldas, castigo físico e noites mal dormidas e ver como nós, os pai-fodásticos-trendy-antenados resolveríamos essas paradas).

Quero compartilhar com vocês algumas impressões:

Em primeiro lugar acho do caralho que existam grupos como o Balaio de Pais ou o Paternando, cada vez mais fortes e queridos. O mundo ainda não sabe como é libertador para um bando de homens médios discutirem coisas como febres altas, número do calçado, dicas para não perder a paciência ou elencar as melhores ervas pra fazer um chá animal pra desentupir um micro nariz. Cansamos do imaginário popular de que homem só discute carro, futebol e mulher. Cansamos de não nos beijarmos ao nos cumprimentarmos e agora choramingamos um com o outro nossas mágoas e frustrações. Cansamos de não nos abraçarmos nem falar que sentimos saudade um do outro pra manter essa frágil imagem de uma masculinidade arcaica.

Estamos de saco cheio de representar o castigador, de bancar o invencível, de promover a hierarquia e o abuso de poder. Pra nós já chega. Queremos falar das nossas incompetências e não fazer delas um motivo de orgulho masculino e sim um motor de transformação social. Queremos mostrar nossas falhas pra outros pais opinarem. Queremos compartilhar essas descobertas recentes pra outros pais experimentarem. Se a grande mídia vê nesse processo de transformação genuíno uma oportunidade para ampliar as vendas, boa sorte pra eles. Sua apropriação em nada atrapalha nossa vitória. Falem. E falem mais se puderem.

Segundo, não existe nada de nova paternidade, nem de paternidade ativa, ideal, isométrica, isonômica, representativa nem democrática. Existe apenas uma sociedade que demanda outro tipo de pai, outro tipo de ser humano. Ao longo dos milênios, cada sociedade e cada época teve a paternidade que lhe coube, que mereceu. A sociedade medieval europeia precisava de um pai representante de Deus, cuidador da moral e bons costumes... Foi isso que recebeu. Duzentos anos depois foi preciso que os pais virassem guardiões dos patrimônios e arranjassem pros seus filhos e filhas casamentos visando à manutenção dos bens. Foi isso que o pai vitoriano teve como objetivo de vida. Nos primórdios da era moderna o pai era o senhor do lar, zelando pela fidelidade, obediência e respeito dos membros da sua família, é isso que os pais executaram.

Nas últimas décadas a humanidade e seus deuses de plantão (tecnologia, dinheiro e reconhecimento, entre outros) entraram em parafuso e a coisa desandou. Sobrou pras mães o cuidado das futuras gerações e o pai achou no escritório a desculpa perfeita pra se isolar da treta. Depois, em vez de os pais irem pra casa, as mães foram obrigadas a também irem pro escritório e ai fodeu de vez. Voltamos aos modelos medievais em que nossos filhos eram criados por outrem.

Parabéns pra nós. Puta role legal.

A paternidade que estamos exercendo hoje, aos trancos e barrancos, é a nossa reação a isso tudo. Fazemos o que dá, aos poucos e como dá pra ser feito. Conforme aparecem (e vamos criando) as oportunidades. É louco pensar que pouco tempo atrás não tinha um banheiro masculino com trocador de fralda (ainda hoje isso é real). Até hoje tem supermercados com filas para idosos, pessoas com deficiência e MÃES com crianças no colo. Ainda hoje o imaginário televisivo, hollywoodiano e radialista entende o pai como um incompetente, sem noção, atrapalhado, confuso, o pior dos cuidadores (uma avó é melhor cuidadora que um pai, sempre). Não sabe que roupa colocar na criança, como colocar uma fralda, não entende de remédio, de sapato, de escola. Suas principais preocupações na vida como pai estão relacionadas à futura sexualidade do seu rebento (o conflito filosófico gay VS pegador) e, se teve a sorte de ter um menino, o time de futebol a escolher (se for menina é só se preocupar com ser fornecedor e não consumidor).

Bom, pra alguns pais essa visão ficou um tanto reduzida.

Fico um pouco incomodado com essa celebração toda dessa tal de nova paternidade. Sinto que ganhamos elogios merecidos, porém injustos. Desproporcionados. Incomoda-me pensar nos meus broders como superpais. Como pais ativos. São pais amorosos e ponto. Incomoda ouvir elogios e pensar na mãe dessas crianças. Que faz bem mais e bem melhor do que eu. Que é a artífice desse meu processo todo. Que se não fosse pela busca dela eu estava ainda na ignorância total. Como ela se sente quando alguém vem me entrevistar como se eu fosse a panaceia da educação emocional?

Sinto um pouco de vergonha. Recusei algumas participações em programas e entrevistas por causa disso, não quero pagar de pai fodão. Eu só estou no meu caminho de querer ser melhor cada dia, mas sinto que levo o crédito por um trabalho que mal desenvolvo. Torço (e trabalho) pra a tal paternidade ativa não virar o novo veganismo, o novo crossfit. “oi gata, sou pai ativo, beleza?” (antes todos queriam dar porrada como Jean Claude Van Dame... hoje querem construir casas nas árvores e matar a própria comida como Rodrigo Gilbert. Nada contra, eu também prefiro, mas como sempre a popularidade é inimiga da legitimidade).

Torço pra que todo mundo embarque na descoberta da sua paternidade, maternidade (ou seja lá o que for) com todo o carinho e a humildade necessários pra fazer disso uma verdadeira jornada de transformação e amor. Espero que os ativismos fiquem no facebook e as atenções nas brincadeiras. Que o olhar esteja mais na criança, no próprio processo. Preocupa esse ar de tendência, de novidade, de vanguardismo chique e antenado. Mas empolga que a figura do pai seja celebrada, discutida, entendida e estudada.

É uma época horrivelmente bonita para ser pai.

Torço pros pais olharem mais pro espelho e menos pela janela. Uma transformação de dentro pra fora. Que cada novo pai se prepare para uma participação intensa, saudável e amorosa, sem importar as adversidades externas. Que cada pai velho reflita e encontre melhores caminhos. Que cada mãe encontre novas parcerias, novos apoios. Que cada família desconstrua suas heranças malditas e haja uma comunhão real na segurança emocional que oferecemos. Se isso é matéria pra um canal ou não, estou pouco me lixando. Se isso vira pauta pra roteirista e produtor, que bom. Se novos modelos de galã forem emplacados, legal.

Isso tudo é uma consequência de uma discussão mais ampla. De um movimento positivo, que embora torto nos seus caminhos, está totalmente reto nas suas intenções.

Celebremos o fundo. Toleremos a forma. As nossas futuras gerações só têm a ganhar.

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