O ACORDO DA MADRUGADA

Faça um exercício comigo.

Pense num local bucólico, um lago, com árvores em flor ao redor, pássaros que cantam e voam no fim da tarde, pétalas que caem delicadamente sobre o espelho d’água, reflexos em tons amarelados e roxos do sol que já se põe, um cheiro de relva aquecida durante longas horas de sol se mistura na brisa quente do fim do dia, impregnando o ambiente com um aroma adocicado que te faz suspirar, e agradecer à vida pelos momentos vividos, ver as coisas em perspectiva e se sentir vivo, pleno.

Agora cai um meteoro de duas toneladas bem no meio do lago.

É mais ou menos isso que ocorre com a chegada do bebê.

Não interessa se você se preparou ou não. Se leu os textos, as matérias, os livros todos. Não interessa quanta conversa preparatória houve, quantos combinados declarou e quantas promessas e planos foram feitos. Você precisa urgentemente ajustar (leia-se: baixar) suas expectativas.

Existem poucos estudos no Brasil nesse sentido, mas no Reino Unido algumas estatísticas sugerem que 25% dos casais se separam logo após a chegada do primeiro filho, atingindo 40% de taxa de divórcio antes dos três anos da criança. Nos Estados Unidos, o número não é muito diferente.

Quantas dessas separações são, de fato, pelo desgaste antigo da relação e quantas delas são, por outra parte, pela carga adicional que o bebê traz? O que pode ser feito para sobreviver como casal a esse novo desafio?

Cada bebê é diferente. E cada dinâmica criada com seus cuidadores será bem particular. Por isso vamos iniciar uma série de postagens sobre o assunto, começando com uma o famoso e bem conceituado... ACORDO DA MADRUGADA

O bebe não faz ideia do que seja dia e o que seja noite. Cresceu num lugar com alguns tons claros, mas sob oito camadas de pele, carne e tecido a coisa fica bem escura. Seus ciclos biológicos são totalmente imaturos (ciclos circadianos) e a melatonina (hormônio responsável pelo sono a noite) é muito deficiente, sendo que ele complementa a sua falta com a melatonina que vem do leite da mãe (que já não é aquelas coisas nesta vida moderna e que a mãe produz mais durante a noite e menos durante o dia). Não faz menor ideia do que seja “compromisso no dia seguinte” ou “hoje foi um dia difícil no trabalho”. Passa a maior parte do dia dormindo porque é assim que a neurologia se constrói: dormindo. À noite, mesmo com as reservas de comida cheias, pode ter as reservas de cafuné baixas ou os depósitos de solidão altos.

Por isso acorda a noite pra tocar o puteiro.

Além disso, está preparado evolutivamente e neurologicamente para sentir mudanças minúsculas no humor dos seus cuidadores. Sente as nuances. Entende a emoção do mesmo jeito que um cachorro. Sente o medo. Fareja a ansiedade e o desespero. Quanto mais você forçar ele a dormir, mais rápido ele acorda.

Seu ciclo circadiano só vai regular lá pela semana 13 de vida e nem por isso vai dormir a noite inteira, dependendo do bebê e da dinâmica da casa. É um período de observação, de fazer anotações sobre as preferências, do que funciona e do que não, de entender o novo habitante da casa.

Enquanto isso tudo ocorre, os cuidadores estão atordoados, privados de sono, cansados e esgotados. O choro atrapalha o sono, foi feito pra isso, pra ser o mais irritante possível para o bebê não ficar desatendido. É evolutivo. O bebê quer ser entretido enquanto você pensa no seu trágico dia amanhã. Os cuidadores entram em conflito, criticam a forma em que o outro segura a criatura, bufam com o insuportável barulho que o outro faz quando tenta se mexer na cama, criticam o modelo de Moises escolhido, o sistema de cama compartilhada, ironizam o bebe do vizinho, que dorme a noite toda desde o primeiro dia, devia ter ouvido a minha mãe, você não sabe como faz, se você tivesse dado mais uma volta com ele já teria dormido, você, você, você....

O Acordo da Madrugada veio para ajudar.

Primeira parte do acordo: a memória

O Acordo da Madrugada é um sistema de amnésia seletiva, em que todas as farpas, as alfinetadas, os xingamentos e as ameaças feitas durante a madrugada, ficam na madrugada. Assim que o dia começa, a interação negativa da noite anterior deve ser esquecida. Se eu mandei você se foder, não me lembro. Se você falou que o Palmeiras não tem mundial, não me recordo. Toda farpa e alfinetada é artificial. Ela não existiu. Ela foi dita e provocada por um agente externo: a privação de sono. A falta de sono afeta o metabolismo cerebral. O planejamento, a memória, a tomada de decisões e as funções hipocampais e pré-frontais de uma pessoa privada do sono são equiparáveis às de uma pessoa com doenças degenerativas sérias (segundo estudos com resonância magnética).

Não adianta trazer a treta pra luz do dia, ai ela vira uma realidade. Deixe a treta na madrugada, faça um exercício de perdão e esquecimento e continue o dia.

Segunda parte do acordo: o planejamento

Aproveite a discussão e planeje a noite, como ela vai ser? Manda uns combinados pra essa noite em especial, ou pra um conjunto de noites. Essa semana eu me encarrego de ninar. Hoje eu me encarrego de ninar das xxx às xxx e você das yy às yyy. Se isso não for possível por algum motivo, que tal permitir que o outro tenha um espaço pra descansar? Se encarregar do bebê, depois de alimentado talvez, durante umas duas ou três horas? Deixar o outro descansar é uma forma de você descansar também (sem mencionar o beneficio enorme para o surgimento da confiança e o apego do bebê com todos seus cuidadores).

Não tem coisa pior que uma discussão às 3 da manhã sobre quem deveria fazer o que enquanto um bebê chora.

O acordo da madrugada não é apenas um jeito de lidar com uma fase complicada. É talvez o primeiro grande exercício de tolerância e de empatia que esses pais novos vão ter pra valer. É mais fácil chegar a acordos com um bebê no útero. Discutir possibilidades com o filho nadando placidamente em liquido amniótico. Quando o bebe nasce, nasce também o estilo do outro, o jeito do outro, o cuidado do outro. Aprender a aceitar esse estilo e saber que estará tudo bem é um esforço e tanto para muita gente.

Na madrugada, com sono, com olheiras e com o sol saindo em 3, 2, 1 essa aceitação de que está tudo bem e que o outro vai se virar (ou aprender a se virar na marra) é essencial.

Como sempre falamos por aqui, a fase é temporária e vai passar... mas as feridas no relacionamento

podem ser mortais. Vamos bolar um acordo?

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© 2017 por Leonardo Piamonte.