Sete anos em um: a crise dos casais contemporâneos.


Sem conseguir verificar a fonte, li uma estatística americana esses dias que bate realmente com o que vejo por aqui no trópico: um em cada dois casamentos celebrados nos últimos dez anos vai acabar nos próximos 24 meses. Ou seja, metade dos casamentos recentes está fadada ao “fracasso”. Ali vale a pena pontuar que não quer dizer que essa outra metade vai ficar casada para sempre ou, pior ainda, que pelo fato de continuarem juntos serão mais felizes do que separados.

O que está acontecendo com os nossos casamentos? Por que esse esfriamento? Por que a indiferença, a raiva, a mesquinhez emocional?

Do meu último texto até este passaram-se meses. Meses em que eu mesmo me vi no meio da nefasta estatística. Mas isso é assunto para um boteco, um cigarro e uma cerveja pra quem quiser me ouvir (inbox, pvt). Minha abordagem aqui não reflete minha experiência pessoal, pretende apenas vislumbrar uma explicação, mesmo que seminal, para esse fenômeno que acompanho com preocupação e agonia.

Ouço mulheres e ouço homens todos os dias. Ouço pais. Ouço mães. Embora meu trabalho recentemente tenha voltado as atenções para novas formas de masculinidade e paternidade, sempre ouvi muitas mulheres e entendo que o momento justifica sair de um Fla x Flu emocional do tipo “nós contra vocês” entre homens e mulheres e apontar alguns caminhos convergentes que possam trazer mais paz de espírito para todos, incluindo as nossas crianças.

Não consigo contar as vezes em que ouvi a frase “O XYXYXY é um puta pai. É um parceiro e tanto... masssss”. Muitas mulheres que conheço entendem que seu marido é um carinha do bem. Nos círculos mais evoluídos que conheço, os homens são cuidadores excepcionais. Entendem o peso da carga mental, do segundo turno, discutem com propriedade remédios caseiros e estão presentes em grande parte das conquistas e perrengues de sua prole. Em outros momentos e ritmos da jornada, temos pais amorosos, afetuosos e dedicados, tentando entregar um pouco mais do que receberam de seus próprios pais, lutando contra os demônios de sete cabeças que o patriarcado incubou em suas inocentes cabecinhas há uns trinta e poucos anos atrás. Alguns desses homens conhecem o funcionamento de um epi-no, outros conseguem elencar elementos da violência obstétrica. Muitos deles abandonaram antigas falas carregadas de preconceito e entraram em ondas mais inclusivas, se permitindo uma emocionalidade mais sadia. Alguns deles não conseguiriam se reconhecer no homem que eram há 5 anos, 10 anos. Esses homens parecem sonhos de consumo, mais hilbertianos, menos apolíneos. Homens em desconstrução e reconstrução constante. Criando grupos de apoio para pais, rodas de conversa, fazendo o que podem para dividir o peso da criação de um ser humano com sua companheira. Esse grupo de homens é muito reduzido (embora eu jamais imaginasse ter um grupo de whatsapp com 163 homens discutindo ativamente essa e outras questões) e mesmo assim está apanhando para manter seus relacionamentos frescos e revigorantes. Como será então na galera que segue os modelos do patriarcado? Homens que não lavam nem um prato e entendem que filho é coisa de mulher, devem estar muito pior...

A verdade é que, conversando com outros colegas e com pessoas de outros círculos, vejo tensões menos evidentes. Como é possível? Um modelo de casamento tradicional, em que a mulher assume o peso todo da carga mental, que engole o segundo turno (Terceiro? Quarto?) inteirinho enquanto seu marido tira uma soneca tem menos chances de se separar do que o casal do parágrafo anterior? Não consigo quantificar, não tenho os dados validados, mas a princípio vejo uma tensão discrepante entre os dois grupos. Vejo que casais que adotaram posições mais ativas na parentalidade tendem a apresentar um desgaste mais precoce do que casais que seguem um modelo mais tradicional. Como uma mãe disse pra mim: “Essa questão da humanização faz os anos virarem anos de cachorro... um dia nisso aqui são sete dias num relacionamento normal”.

Não há dúvida de que o envolvimento de uma parcela de pais foi um passo incrível para a construção de uma sociedade mais justa e menos machista. O beneficio para uma criança de ser cuidada (não só protegida) pela mãe e pelo pai é imenso. Crianças que crescem acostumadas a estilos de cuidado diferentes têm um desenvolvimento emocional mais seguro, são mais confiantes e mostram um leque maior de possibilidades para manifestar seus sentimentos. As crianças estão bem. Choram, se batem entre elas e causam uma ou outra vez, mas estão bem. Estão fortes. Estão brincando legal. São crianças prósperas. Enquanto isso, por trás do palco da infância saudável e bem protegida está uma cena corroída, como um teatro em que o público só consegue ver a beleza da cortina vermelha e o tablado de madeira impecável, com atores mirins representando uma linda peça, mas não vê as mãos que sangram do aderecista ou o choro do contrarregra por trás da cena.

Estamos indo mal como casais. Muito mal. As áreas mais reprimidas tendem a explodir primeiro, como quando você tenta segurar uma bola cheia de ar no fundo da piscina. O sexo, aquele departamento que estava em parêntese eterno e que gerou tanta discussão costuma ser o primeiro da fila a explodir. Muitas das mulheres que ouço querem transar, mas nem sempre se interessam pelos maridos. Muitos dos homens que ouço querem apenas transar, como se fosse um favor. Empresta esse negócio aí 5 minutos, já te devolvo. Tem de tudo. Soluções que envolvem a entrada de terceiros, quartos e quintos elementos. Terceirizações perigosas (uma coisa é você terceirizar a lavagem da roupa... outra, terceirizar a necessidade de atenção e admiração). Já em 2003, Judith Warner apontou, na Newsweek, que 20% dos casais americanos estavam transando até 10 vezes por ano, criando assim uma classificação para a definição sexológica de “casamento não sexual”. Sei não se no Brasil a coisa é muito diferente uma década e meia depois.

O fato é que há elementos bem particulares na nossa crise matrimonial contemporânea. Em primeiro lugar, somos uma das primeiras gerações que conseguiu casar com alguém que amava. Duas gerações atrás isso era impensável, uma geração atrás era apenas praticável e hoje é o mais normal: casar por amor. Antigamente o povo se juntava por motivos patrimoniais, convenientes, burocráticos, societários, estratégicos. O amor era um item de luxo opcional. Lembro-me da minha avó, nos seus oitenta e poucos anos, algo ranheta, mas lúcida, dizendo que o número de filhos que tinha tido era igual ao número de estupros que teve que aguentar. Amor era coisa de tolos. De cegos. De inocentes. Hoje casamos com quem bem entendemos. Casamos já não para administrar um patrimônio e manter a lei de Deus, casamos porque nosso amor é tão especial que deve ser reproduzido, integrado. Casamos porque a ausência é irreparável, porque a vontade é muita.

Casamos com os nossos confidentes, nossos melhores amigos, nossos parceiros de aventuras. E qual o problema então? O problema é que nossos motivos para casar evoluíram e melhoraram, mas os modelos de casamento, na essência, seguem inalterados. Queremos casar com os nossos melhores amigos, mas a transparência e a honestidade são severamente punidas. Queremos morar com o nosso parceiro de aventuras, mas exigimos seguranças, garantias e previsibilidade. Queremos um casamento leve em um molde burocrático. Queremos um encontro de almas em um marco econômico-patrimonial. Te amo com loucura, já pagou o aluguel? Vamos viver aventuras, mas até às 22h, porque amanhã preciso acordar cedo. Vamos fazer amor como dois amantes, perdidamente apaixonados, mas toma cuidado com esse vinho que se cair no lençol, a mancha não vai sair e esse lençol é aquele de 400 fios que a minha mãe me deu e da outra vez ela perguntou se a gente estava usando e.....

Além do pequeno conflito de modelos, temos uma pedrada absurda chamada filhos. Quando os filhos chegam, o casal antenado, revolucionário e guerrilheiro enfrenta uma dura decisão: quem vai ganhar o pão. Quase na totalidade dos casos, devido até a questões relacionadas a amamentação, vai o pai trazer o sustento da cria. Nos nossos modelos patéticos e subdesenvolvidos, temos políticas públicas ridículas no que se refere à participação do pai no puerpério. Mesmo as empresinhas mais descoladas têm políticas “não manifestas” em que o pai que decide ir atrás dos seus direitos, que a mesma empresa estabeleceu, é punido não só com o olhar e o ceticismo dos colegas, chefes e funcionários, que não entendem o que um homem poderia fazer durante um puerpério (aliás, que porra é essa de puerpério?) mas também no bolso, pois hoje há pesquisas que confirmam a existência do que em inglês se conhece como “daddy penalty”, uma diferença de cerca de 19% a menos na remuneração dos homens que faltam ocasionalmente ao trabalho ou que precisam de horários alternativos para ir a médicos, reuniões e eventos relacionados à prole.

Agora temos um casal que se ama e quer viver aventuras e que são melhores amigos, com um bebê, com um peito jorrando leite (e não raro sangue e pus), acordando de hora em hora, e com um deles sob a pressão de ser preterido no trabalho por participar mais da vida infantil ou com a tendência que a maioria dos homens têm durante esse período de trabalhar por mais tempo e investir mais horas do dia em assuntos reacionados ao trabalho.

Paralelamente, aquela mulher independente, foda, feminista, agora precisa pedir dinheiro para comprar absorvente. Ela, que antes pagava as próprias contas e ainda rachava a conta do motel, agora precisa depender financeiramente dele. Ela, que provavelmente resolvia pepinos cabeludos em ambientes de trabalho complicados, ou em projetos próprios, agora é a encarregada de comprar o gás. E o pão. Se ela tiver um trabalho e voltar depois da licença maternidade, o sentimento de culpa se aninha confortavelmente nesse coração e entende sua vida profissional como uma ausência, como um fardo, mais uma fonte de infelicidade.

A criação com apego, a humanização, ou seja qual for o conceito escolhido pelo leitor para definir esse estilo de parentalidade, gerou cargas adicionais que complicaram a equação. Enquanto o homem (que entrava quase sempre de gaiato na história, arrastado em algumas ocasiões) estava em um caminho de descobertas e pequenas recompensas diárias, a mulher estava sob o olhar atento da sociedade e perante algumas expectativas bem altas do seu novo grupo social. O homem ganhava elogios por ser mais envolvido, por saber trocar uma fralda, por ir passear sozinho com a filha pequena, por descobrir o próprio balanço rítmico infalível para botar o neném pra dormir (nunca vou esquecer do broder que um dia saiu do banheiro todo orgulhoso por ter conseguido fazer o número dois com a cria no sling, sem acordar... veio contar todo felizão pra mulher... que com aquele olhar de compaixão o encarou e disse: Pronto, amor, agora você está pronto para ser mãe). A mulher, enquanto isso, recebia críticas por dar o peito a qualquer hora e em qualquer lugar, por um lado, e pelo outro se criticava por não ter entendido ainda o conceito de primeiro leite e segundo leite, por ter considerado a fórmula como uma opção (eu repito: já vi mãe pedindo desculpas ao mundo por ter dado peito “apenas” um ano e oito meses). Ela era considerada uma insensível por apertar um bebê numa toalha de mesa que ela chama de slingue e ao mesmo tempo se sentia a pior mãe do mundo por ter que usar fraldas descartáveis em vez das fraldas de pano. Quer que a filha não veja televisão antes dos 10 anos e que não coma brigadeiro em festas infantis antes dos 18.

Sem querer, a humanização foi criando uma cartilha. Um manual que não era de boas práticas e sim um decálogo de ação meritória. Quem fizesse mais pontos na cartilha poderia se dizer acima daquelas que eram chamadas, em tom jocoso (mas com um fundo de crença verdadeira) de “menas mães”. Uma equipe humanizada, uma piscina em casa, uma cama compartilhada, um quarto montessoriano, um peito a livre demanda, uma introdução alimentar ao estilo BLW, um, dois, três slings de diferentes ergonomias, uma rejeição da chupeta, da mamadeira, da televisão, um brinquedo de madeira, um colar de âmbar, uma antroposofia, uma homeopatia e outros 500 elementos foram diluindo em parte suas grandes virtudes para virarem elementos de julgamento e condenação. Ninguém discute os benefícios das opções acima, mas de repente as alternativas sadias se transformaram em pesadas exigências para essa mulher, com o peito dolorido, as costas fodidas, com os projetos interrompidos, o sono alterado, a carreira truncada, as amizades sumidas, o sexo enferrujado e criticada pela sociedade por ser radical e molenga e tendo que pedir dinheiro para o absorvente, o gás e o pão.

Um desgaste longo, que pingava veneno gota a gota, durante anos intensos de noites mal dormidas e camas frias sobre esse projeto inicial de amizade, aventuras e parcerias. Uma realidade que trazia um esgotamento físico e mental muito mais forte para a mulher, que aos poucos começa a se incomodar. “Quero voltar a ser mulher”, me disse uma delas semana passada. Como assim? Conseguimos tirar a maternidade do âmbito integral do feminino para virar um status de existência independente? (Ou como vi num sketch do Saturday night live... em que Justin Timberlake brincava com presentes pra dar pra mãe... give her something that says: you’re not a woman, you’re a mom).

O mundo nunca foi um lugar muito amigável para as mães. Lundberg (um precursor teórico da Laura Gutman) acreditava que nosso verdadeiro foco de estudo não deveriam ser os grandes criminosos e psicopatas da humanidade (tomando Hitler e Mussolini como exemplo, em seu livro Modern Woman: the lost sex), e sim, suas mães. Foi a mãe de Hitler quem provocou tudo, afinal, ela continuou alimentando as expectativas do filhinho como artista, mesmo o sujeito não tendo talento algum para o ofício (frustrado, decide entrar pro exército, frustrado, decide acabar com metade da humanidade). Spitz, outro grande psicanalista, em 1965, afirmou que a personalidade da mãe pode agir como uma “toxina psicológica”, que é um veneno que se deposita nas atitudes da mãe com o filho, de forma inconsciente, fazendo com que o filho fique doente, tenha cólica e, porque não, até eczema de pele devido às ansiedades da sua mãe. E as mães na teoria Freudiana? Um horror. Tanto a mãe amorosa e afetiva quanto a distante e fria são a fonte de toda neurose, praticamente. Winnicot também deixou sua contribuição dizendo que a mãe “boa o suficiente” era aquela capaz de se conectar de tal forma com seu filho que as necessidades dele fossem totalmente antecipadas, até provocar na cria o sentimento de “onipotência”. Caralho. Como você se sente, péssima mãe, que não consegue provocar a sensação de onipotência no seu filho? Logo esse, um sentimento tão comum e apropriado para ter neste mundo...

Acreditamos por um instante que estávamos indo melhor do que todas essas gerações. E em algumas coisas melhoramos, de fato. Hoje, com as crianças maiores e os casamentos em frangalhos, talvez valha a pena entender o que fizemos de errado nesse protótipo inicial de sociedade pós-pós-moderna. Talvez, sim, tenhamos descoberto caminhos possíveis para a infância. Uma infância menos consumista, mais diversa, criada na igualdade e no respeito, longe dos grandes centros de formação de pensamento alienado e com espírito crítico e contestador. Mandamos bem até agora. Levantamos a bandeira da carga mental, identificamos o machismo nosso de cada dia (desculpe o transtorno, estamos trabalhando ainda), colocamos a paternidade na pauta da grande mídia (somos o novo veganismo, o novo crossfit, a nova paleteria mexicana) e continuamos engrossando as fileiras dos homens cansados de serem o anexo inútil do lar, passando a ter uma participação (longe do ideal) mais ativa. Erramos na mão com o outro lado do triângulo, com os parênteses eternos na vida a dois, com as conversas mal resolvidas, as pequenas tretas que viram grandes rachaduras, erramos na mão na definição de expectativas, de ajuste de realidades.

Erramos feio na compreensão de que os filhos são um projeto urgente, mas o projeto importante podia ter sido a manutenção da unidade familiar no longo prazo. Esquecemo-nos de que as crianças cresceriam, se desenvolveriam, virariam pessoinhas do mundo... e nós dois ficaríamos a nos olhar, cada um num canto da cama, meio sem saber quem somos, num cenário pós-tormenta, cansados, raivosos, carregados, sozinhos. De saco cheio.

Torço para que encontremos os caminhos juntos. Que as tentativas sejam genuínas, que os esforços sejam sinceros, que as separações sejam consensuais e construtivas. Torço para que esse sangue derramado possa fertilizar relações mais sadias nos casamentos e parcerias do futuro. Espero que falemos. Que falemos muito. Que possamos entender que a transformação social que queremos ver no mundo só será possível na construção conjunta. Talvez o momento já não seja de luta ,e sim, de edificação. Vamos em frente.

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© 2017 por Leonardo Piamonte.