Sete Anos em Um: A reforma


Pense que você está na sua casa e de repente, no meio do jantar, uma lâmpada deixa de funcionar e a sua sala fica um pouco mais escura.

O que você faria?

Imagino que você iria pegar uma lâmpada nova, buscar uma cadeira em algum momento e trocar a lâmpada quebrada. Você troca a lâmpada e a nova também não funciona. E agora?

Alguma coisa está errada e é mais profunda do que o sintoma evidente. Acontece que você tira a lâmpada, pois você pensa que o bocal pode estar oxidado (devido sua fabricação ser em ferro recoberto com cádmio). Não é isso, o bocal não é o problema.

Serão os bornes? Os que você tem não são de latão puro, se você trocar por uns bornes de puro latão, que é um pouco mais caro, mas de ótima qualidade, pode resolver.

Não resolveu. Um dos parafusos de fixação do retorno pode estar frouxo. A solução é reapertar os parafusos. Também pode ser o desgaste do contato interno no interruptor, tem que trocar.

Nada.

Pode ser uma emenda qualquer nas caixas de derivação (caixa embutida na parede onde está o interruptor ou caixa no teto onde está a lâmpada)... pode ter sido mal feita ou não estar ajustada. Pode ser que você não esteja vendo isso porque elas estão cobertas com fita isolante. Tem que ser isso.

Não resolveu.

E se for um vazamento de corrente em um dos fios que alimenta essa lâmpada porque ele está descascado em seu percurso dentro do conduíte e ai é foda de diagnosticar, pois envolve testes específicos com um Multímetro ou um Alicate Amperímetro. A tensão em volts deve ser medida nos dois parafusos ligados ao bocal com o interruptor acionado e a rede elétrica energizada. Da mesma forma, tem que medir a corrente em ampères da lâmpada, também com ela piscando ou acesa em outro bocal.

Tudo é inútil. Agora vai precisar quebrar a parede, trocar tudo, mas os cabos saem da casa do vizinho, precisa ativar a empresa de energia e interromper o fornecimento para verificar o problema e quem sabe nem seja isso ainda.

Agora a pergunta: o que você faz? Você faria tudo aquilo que foi descrito e iria até as ultimas consequências para fazer a sua lâmpada funcionar de novo? Ou você aceitaria que o sistema todo está podre, que a luz não é a melhor, mas bola pra frente?

Pra que essa introdução toda?

Apenas para exemplificar as dificuldades enormes, as dores terríveis da mudança quando ela ocorre no nível estrutural. Para muitas pessoas é mais fácil ignorar os sintomas, se adaptar às carências e tocar a vida. Para os que decidem ir atrás e mudar as estruturas, o caminho é longo e tortuoso.

Quando um pai/mãe decide reformar suas estruturas para iluminar mais a sua vida e resolver questões antigas que não funcionam mais, seu caminho não é fácil. É como fazer essa reforma toda da lâmpada sem ser pedreiro, sem ser arquiteto ou eletricista. Sem entender porra nenhuma de iluminação, de gesso, de drywall ou de parede, passa por uma reforma que deixa sua sala empoeirada, suja, escura durante horas importantes, bagunçada. A obra toma conta da vida, não acaba nunca, todo mundo tem um pitaco para te oferecer e a informação disponível junto com o bando de especialista que se contradiz não ajuda.

Pra quem mora na casa o conflito aparece. A harmonia se perde, o caos se instaura, o já delicado equilibro some. Quando a poeira toma conta dos espaços, as discussões por coisas menos importantes ficam relevantes demais, ofensivas demais. As alfinetadas sobre a última decisão pra resolver o lance do conduite machucam, magoam. O convívio fica tóxico.

A situação da lâmpada está tão errada e o trabalho que está dando é tão absurdo que muitos ficamos pelo caminho.

Enquanto isso, o vizinho está lá, com duas lâmpadas queimadas desde 1998. Compensa com uma vela. Não pensa nunca em mudar. Chegou a um ponto de normalidade tal que nem percebe que tem lâmpadas queimadas. Pra ele está tudo certo. Tudo lindo. Sua mulher esta ficando cega, mas isso é mimimi dela.

No texto anterior do blogue, eu afirmei, de forma totalmente empírica, que vejo os casais mais tradicionais, mais patriarcais, se separando menos do que os casais que seguiram estilos de criação mais empoderados (não que se separar seja o indicador principal do fracasso de um relacionamento, da pra viver junto fazendo da vida um inferno... ou um deserto). Conversando com casais de todo tipo, com mães solo e com pais solo fui percebendo que muitas iniciativas lindas de criação deixavam a maioria dos casais esgotados e empoeirados. Os homens fazendo 500% mais do que as gerações passadas fizeram (500% não, vai... mas pelo menos de 1965 para 2012, o número de minutos investidos no cuidado da cria aumentou de 16 para 59 por dia para os homens), a mulherada enfrentando o mundo pelas suas convicções, apanhando de tudo que é lado, vivendo por aquilo que acredita e vendo crianças quase sempre poderosas e amadas, mas a felicidade adulta continuava elusiva e inatingível.

Entendo que a mudança social que queremos promover com a participação real e empoderada do homem está em fases extremamente iniciais aqui no trópico. No nosso exemplo, vejo nas rodas de conversa e nos eventos que a maioria dos homens não consegue ver nem qual a lâmpada que quebrou. Alguns a enxergam, mas não entendem qual a necessidade de saírem do sofá, deixarem de assistir o futebol ou arriscarem a cerva esquentar para ir pegar uma escada e ver que foi o que aconteceu.

Outro grupo de homens está vendo a lâmpada quebrada. É. Foda. Amanha vai ter que dar uma olhada nisso. Outros estão lá na escada, meio atrapalhados, meio tentando subir, meio tentando não cair. Poucos, pouquíssimos homens estão já na fase de entender a seriedade do assunto e estão já com algumas ferramentas na mão, tentando, apertando, medindo e finalmente fazendo algo. Um ou outro estão chegando na solução, aos poucos. Seja como for, todos cresceram à luz de velas e luminárias podres com cheiro de querosene e lâmpadas não só quebradas, mas todas fodidas de mofo e teia de aranha e que seus pais não só nunca fizeram a menor questão de nem sequer parar para olhar, mas até encheram a mãe de porrada quando ela quis uma lâmpada nova. Por mal agradecida. Por safada. Por mulher.

Ah. Esqueci de mencionar um detalhe... a mulherada já tinha sacado que a fiação dessa casa é uma bosta, teve que cozinhar, cuidar, amar, arrumar e trabalhar na penumbra, não reclamou. Quando reclamou parecia estar falando em chinês, desistiu. Tem que fazer as coisas e pronto, nem que seja a meia luz. Do que você está falando? Deixa pra lá, ela respondeu.

Muitos homens estão sendo reconhecidos pela comunidade pelo fato de querer correr atrás da tal da solução estrutural. Ninguém reconheceu que a mulher ao longo desses anos todos teve que se virar e agora o hominho leva todo o crédito por trazer a escada (o problema está longe de ser resolvido), um crédito que nunca ninguém deu à mulher... ou como ouvi esses dias no lançamento do Minidocumentário Força Matriz, da boca da Rita Monte: a maternidade é o não-assunto mais antigo da humanidade.

O que fazer? Vamos deixar de lado aqueles que não encararam a reforma. Vamos deixar o patriarcado no lar para outro momento. Vamos falar desse grupo que decidiu realizar a reforma. Estamos empoeirados, sujos e cansados e longe de terminar. Só o fato de imaginar o que estamos fazendo e o que falta pra fazer deixa-nos esgotados, impacientes e sensíveis. Estamos meio monotemáticos. Temos livros e manuais sobre bornes, teóricos da iluminação, posts sobre interruptores e rodas de conversa sobre conduites e disjuntores. Falamos da obra no jantar, falamos da obra com outros amigos que estão fazendo obra, falamos da obra no banho, e levamos a obra pra deitar conosco na nossa cama. É muito novo conhecimento, novas habilidades. Lá no fundo parece mais fácil ficar no sofá que nem o vizinho, que sabe de cor os 11 jogadores do saudoso Corinthians de 1974, mas não sabe o nome dos professores da sua filha.

Homem de verdade antigamente tinha uma lista curta de coisas pra fazer: trabalhar, pagar conta, consertar coisas de tempos em tempos. Homem que é homem agora precisa reconhecer, reduzir e redistribuir o cuidado não remunerado e o trabalho doméstico, apoiar a criação de sistemas de proteção social que levem em consideração a questão do gênero, precisa promover relações familiares igualitárias que criem as condições para que as mulheres explorem seus potenciais profissionais, precisa determinar sistemas de participação das decisões do lar que equilibrem a distribuição do poder, precisa assumir logísticas profundas da casa, que vão além da compra, além do pagamento, precisa exemplificar a autoridade positiva com os filhos, o cuidado interativo, a promoção a igualdade, a liberdade para a tomada de decisões fundamentais para outros membros da família, precisa elaborar os conceitos de teto de vidro, escada quebrada e chão grudento e as implicações dessas noções de bloqueio da capacidade feminina tanto no local de trabalho quanto no lar. Precisa entender o equilíbrio entre empoderamento econômico da mulher e bem-estar financeiro. Precisa se desvencilhar do patriarcado como sistema de distribuição do poder, como forma de execução da personalidade. Precisa se engajar no livre brincar, na educação afirmativa, no cuidado delicado. E precisa trabalhar, pagar conta e consertar coisas de tempos em tempos.

Tai a porra da reforma, a gente achando que era uma lampadinha.

Não tem como pensar nisto com leveza, mas podemos definir estratégias para impedir que a poeira se instale em cômodos em que a lampadinha está funcionando. Vamos parar de militar na cama, por exemplo. Podíamos parar de falar um com o outro como se estivéssemos respondendo no facebook. Podíamos encontrar uma linguagem melhor que a ironia e o deboche. Melhor que o silêncio. Podíamos inventar outro idioma intermediário entre tua necessidade e a minha, podíamos engolir um pouco da carga histórica de injustiça e reivindicação e jantar, rir e transar, por exemplo. Que tal se redefinirmos os inimigos? Ou se entendermos também que o inimigo não ouve? Que o facebook é uma rede social de polarização e distanciamento? Que quando os inimigos conversam a guerra acaba e a paz prospera? A guerra tem medo de abraço, usa camuflado para ninguém ver suas lágrimas, diria o Residente. Que tal se perdoarmos a falta de tato do outro e o ensinarmos em vez de ridicularizar suas tentativas? A empatia deve florir e se espalhar. Os casamentos da galera que assumiu a treta toda de trocar as estruturas estão ruindo porque a reforma está ficando maior que a casa. Mesmo que o mundo seja um lugar injusto e sensacionalista, podíamos validar as pessoas que estão em momentos iniciais da jornada de transformação e acolher numa grande rede de transformação em vez de continuar o caminho da polarização e o deboche de quem está se esforçando e fazendo o que pode?

Estamos enfrentando uma epidemia de separação, de polarização do discurso e de falta de empatia. A sororidade chega até a pagina três. A rede de apoio é só para quem é do role, pra quem é amiguinho no meu parquinho. A teoria superou o amor em muitos casos. Já deu. Ou a gente se une numa grande revolução social que envolve todos os interessados, mesmo que em níveis diferentes da jornada de transformação e luta contra o verdadeiro vilão ou a gente vai sucumbir como tentativa e vamos entregar os nossos destinos aos mesmos atores de sempre.

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© 2017 por Leonardo Piamonte.