Meu pai é um herói

Meu pai é um herói!

...Rezava o cartaz na frente da loja de ternos e gravatas.

A peça foi criada para promover as vendas no dia dos pais, no passado mês de agosto, que, entra ano e sai ano, apela aos mesmos modelos ultrapassados de homem e visões reduzidíssimas da paternidade que teimam em sobreviver.

Essa ideia do pai como herói me chama muito a atenção. O que tem de heroico no papel do pai? Que tipo de funções esse pai ocupa para ser chamado de herói? Um herói é necessariamente uma figura que queremos associar à paternidade que queremos para o futuro?

Há quem diga que existem vários tipos de herói. Evidentemente tem uma miríade deles. Mas mesmo com a diversidade de personalidades e características (e superpoderes de cada um), o fato é que a sociedade limita sua percepção do herói a apenas um punhado de características essenciais que são esperadas da figura heroica.

Pesquisas recentes apontam que a sociedade no geral consegue agrupar a figura prototípica do herói como um indivíduo que encarna a coragem, o sacrifício, a convicção ferrenha nos ideais, a integridade moral, a disposição em assumir riscos e que tem como objetivo fazer do mundo um lugar melhor, fazer o que ninguém mais consegue, proteger os outros, salvar o dia e agir contra forças malignas.

Sinto-me seguro e protegido com esse tipo de atributos quando penso em lagartixas gigantes invasoras alienígenas ameaçando os prédios da avenida paulista e a ciclovia da consolação, mas me preocupa um pouco essa definição quando o cenário é o lar e a exigência é sobre o que esperamos de um homem: Esse modelo heroico fóssil é pouco enriquecedor para o núcleo familiar e para as nossas crianças hoje.

Vamos falar disso?

Pensa nos heróis que conhecemos ao longo da nossa vida. A maioria deles era do tipo intervencionista.

Era uma figura distante e misteriosa que aparecia no meio do caos para resolver uma treta que ninguém mais conseguia. Matar um monstro que já tinha destruído praticamente a totalidade da cidade ou tinha tocado o terror na população. Era uma intervenção concreta, certeira, dramática. Quando o embate com o bichão se resolvia (não sem uma bela dose de sacrifício e sofrimento), esse herói sumia. Muitas das vezes sem nem falar tchau. Apenas... sumia. A solução (e a torcida?) era ter outra treta pra resolver e assim o herói faria sua superaparição, resolveria a superparada e ficaria superausente de novo.

Talvez era um modelo mais condizente com as realidades da década de 50? Talvez seguindo esse modelo arcaico em que o amor de pai era um amor de fornecimento, proteção e salvaguarda. Hoje sabemos, pela ciência e pela experiência, que um pai mais presente se reflete em menos problemas de alcoolismo, menos abuso de drogas, menos comportamentos de risco, autoestima elevada, menor taxa de gravidez precoce e até mais sucesso econômico e acadêmico para as crias, apenas para ficar com a parte formal e chata do beneficio... deixando de lado a maior capacidade de sentir empatia, de desenvolvimento de uma saúde emocional mais robusta, menos depressão e otras cositas que tomariam o texto inteiro para descrever.

Não precisamos de pais misteriosos e distantes que resolvem os problemas que mais ninguém consegue resolver. Precisamos de pais próximos e transparentes que, embora detentores de maior poder de decisão, exercem uma escuta atenta e fomentam a participação dos filhos na solução dos problemas do lar.

Não precisamos entender o amor a partir do sacrifício heroico. Estamos acostumados a um herói que aguenta mais do que pode, que quase desfalece por resistir, que resolve sozinho a bomba que está prestes a explodir e em ocasiões até se explode junto.

Para que isso tudo? Um pai que reconhece que precisa de ajuda, que delega, que debate as saídas e compartilha as preocupações é um homem mais saudável da perspectiva emocional. É um homem menos explosivo. O sacrifício pelo amor tem um componente muito forte, universal em mitologias e religiões. Aquele que morre porque ama. É uma ideia heroica, porém, nada prática. É tempo de reavaliar se é realmente o sacrifício desmedido a melhor maneira de demonstrar amor. O sacrifício desmedido tirou o homem do convívio do lar, trancou num escritório e jogou fora a chave do acesso ao cuidado dos seres amados. Um mártir que se mata de trabalhar para poder prover. Esse herói que prefere se afogar no álcool antes de assumir suas fraquezas e ansiedades. Esse valente que prefere explodir de tempos em tempos em vez de dialogar com serenidade quando a oportunidade se apresenta. Esse guerreiro que é um incompreendido, um ser isolado emocionalmente, um refém já não de uma cigarra cósmica marciana, mas das próprias circunstâncias da masculinidade dos nossos tempos.

Já deu.

Outras características do herói nos remetem a essa paternidade quase medieval, do zelo com os valores, da inflexibilidade das ideias, da guarda final do prumo moral, da rejeição do novo, do diferente, do diverso (às vezes o tal do monstro a vencer é apenas um bicho novo e desconhecido. Já pensou nisso?).

Precisamos de pais que eduquem seus filhos na diversidade racial, sexual, de credo e de identificação pessoal. Não precisamos de pais que sejam o bastião da integridade moral e o comportamento irreprochável. Seria melhor termos pais que assumam que falham, que pedem desculpas, que aceitam que estão enganados e que ouvem outras opiniões e outras perspectivas. Queremos pais de dialogo e não pais de ordem. Pais de exemplo e não de instrução.

Talvez seja hora de refletir se o lugar do papai-herói é tão positivo assim.

Talvez nossos filhos se beneficiem mais de uma expectativa mais humana e menos mirabolante. Talvez nossa intervenção não tenha que ocorrer de forma tão esporádica, talvez o nosso heroísmo possa ser trocado por protagonismo.

E se em vez de um mártir ou um justiceiro tivermos apenas um homem que ama e cuida? (Por que a presença e o dia a dia nos parecem menos heroicos?) Quem sabe a jornada desse herói deva acontecer apenas num plano interno... Lutando contra nossos próprios monstros e fantasmas, batendo, apanhando e quem sabe vencendo (não sem uma bela dose de sacrifício e sofrimento) em lutas épicas e batalhas memoráveis?

Talvez nosso heroísmo esteja reservado pra esse espaço.

Um espaço de luta particular e constante, de onde saímos já não para salvar o mundo com a nossa ousadia, mas para cuidar dos nossos relacionamentos com o superpoder do amor.

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