Quem é a resistência nesta história?

Deviam ser umas 19 e pouco do último domingo 28 de outubro, hora e dia da apuração do resultado eleitoral que deixaria Jair Bolsonaro como o futuro presidente do Brasil. Eu estava na frente do local onde daria uma palestra em Goiânia, junto com alguns outros pais, sobre a importância de ser um pai engajado na criação dos filhos, sobre as novas formas de exercer a masculinidade e sobre a importância de assumirmos novos compromissos, familiares, pessoais e sociais, como homens, em nome de um bem maior. Enquanto o foguetório corria solto, os carros buzinavam e, pelas janelas, algumas pessoas tocavam cornetas e apitos, eu fixei no olhar no restaurante que estava na frente do local. Era um restaurante grande, uma pizzaria talvez, não sei precisar. Na minha frente tinha um janelão enorme, uma verdadeira parede de vidro, onde com perfeição dava para enxergar as curvas e labirintos de um brinquedo enorme, desses de plástico e madeira.

Por um instante consegui eliminar o ruído da minha cabeça. Depois de meses (anos?) preocupado com os destinos do país em que meus filhos crescem, preocupado com a chegada desse dia, dessa hora e desse momento, consegui 30 segundos de paz, olhando para umas três crianças que pulavam na cama elástica, outros dois pendurados em um “galho” e se balançando freneticamente... mais um tentava encontrar o caminho passado por uma série de obstáculos estofados, em verde, amarelo, vermelho e azul.

Fitei as crianças e o brinquedo e me deleitei com a imagem.

As crianças estavam lá, alheias ao momento crítico. Brincando, se divertindo. Correndo, se jogando. Soltas. Livres. Pensei nas minhas crianças. Pensei nas crianças dos meus amigos, das minhas amigas. Pensei nas crianças das pessoas que amo. Pensei nesses pais lá dentro do espaço, esperando as opiniões que eu poderia oferecer para melhorarem como homens, para se desvencilharem de modelos arcaicos e frágeis de uma masculinidade que, ironicamente, se passeava na minha frente fazendo gestos de arminha na minha direção. Olhei de novo para as crianças e senti algo novo neste período todo. Senti o ar fresco da definição. Alguma ansiedade tinha desaparecido nesse momento. Já não me ocupava o sentimento de esperança duvidosa, de torcida tímida e reticente. Senti que a minha incerteza subia junto com esses rojões e explodia no ar em sórdidos barulhos. Olhando pra uma cena improvável, obra total do acaso, vendo crianças sendo crianças num cenário que eu entendia apocalíptico e conclusivo, entendi, em um segundo, que eu estava enganado. Eu estou enganado quando penso em mim como resistência. Eu não sou. Eu sou progresso. A resistência pertence a aqueles que estão vendo seus espaços privilegiados ruírem, aos poucos, consistentemente, e precisam de atos desesperados para defender suas muralhas, outrora intransponíveis. Eu não estou sendo ameaçado. Eu ameaço os outros com a minha coragem e meu valor, com a minha rede de solidariedade que encontra no outro o apoio requerido, o abraço necessário. Eu estou crescendo e isso incomoda. Estou ocupando os espaços que antigamente não me eram permitidos. Estou entrando, em tom de festa e carnaval, em salas de gente asséptica que se assustam com os germes dos meus pés descalços. Alguma coisa terão que fazer para deter essa minha alegria, produto do mais puro sentimento de estar vivo, de estar me lambuzando de vida enquanto uma tradicional estrutura tropical come a vida com garfo e faca. Estou incomodando? Sinto muito, segura minha cachaça. Cheguei pra bagunçar esta porra toda, madame, monsieur. Vamos dançar?

Durante 10 segundos tive a revelação que emoldurei e pendurei no canto mais iluminado do meu cérebro e que espero me guie entre as trevas dos possíveis desdobramentos deste momento pátrio: a intolerância pode ter vencido a eleição, o ódio e o medo do diferente podem até nomear um presidente, mas a estrutura está cheia da minha bactéria. Os bichinhos do nosso amor estão grudados na fria estrutura, para atormentar com essa incômoda presença, com um beijo barulhento, com um abraço desenfreado. Essa má-educação. Somos anormais e isso nos encanta. O processo é físico. Em engenharia de materiais se conhece como “deformação plástica”. Quando duas forças opostas são aplicadas a um material, em algum momento crítico, a tensão que o material pode resistir é excedida; se a tensão for mantida, o resultado será a fratura. A nossa sociedade quebrou. O centro ideológico virou um pescoço frágil onde ocorreu o rompimento. Avançamos. Pensei. Os que nos importamos com o outro, os que não vemos na diversidade uma ameaça e sim uma oportunidade, os que entendemos a solidariedade como um fio que alimenta o tecido social e não um ato para aliviar a nossa culpa. Estamos avançando, falei. Conseguimos incomodar tanto que prometem a nossa morte, o nosso exilio. Não vamos morrer. Não vamos embora. Estamos conquistando novos terrenos e deixando cair pólen e sementes carregadas de carinho e dedicação. Um sorriso de esperança e ilusão apareceu no meu rosto.

O segurança do local da palestra me perguntou, vendo meu sorriso: agora as coisas vão melhorar de verdade, né?

Ah, meu irmão. Vão. E como! respondi sorrindo, acreditando realmente na minha resposta.

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© 2017 por Leonardo Piamonte.